Calma! Não é nenhum texto versando sobre alguma teoria da conspiração.

Uma das coisas que mais gosto de estudar é Propaganda, seus mecanismos e sua história. Principalmente dos períodos da 2ª Guerra Mundial e da Guerra Fria.

O Filipe (Blog do Crespo) tinha me falado algumas vezes sobre um desenho do Pato Donald nazista. Na primeira vez, achei que fosse mais uma daquelas lendas urbanas. Quando ele me perguntou de novo sobre o desenho e se eu tinha procurado no Youtube, resolvi me coçar e procurar. E, sim, o danado do desenho existe (clique na imagem):

Clique aqui para ver o vídeo

Muito interessante. E fica mais interessante quando se fica sabendo de alguns detalhes a respeito. Primeiramente, é preciso entender o contexto da época em que foi lançado.

O desenho foi produzido em 1943, auge da 2º guerra mundial, e no mesmo ano ganhou o Oscar de melhor curta (puxa, que surpresa!). Antes disso, a indústria cinematográfica americana já havia direcionado seus esforços para a produção de material de propaganda anti-nazista, em 1942, quando os EUA ingressaram efetivamente na guerra. Além do Pato Donald, outros personagens se juntaram às tropas americanas contra o nazismo: Mickey, Popeye, Patolino, Gato Félix etc. Além desses, podemos encontrar outros exemplos do próprio Disney, como um desenho falando sobre a educação infantil nazista (Hitler’s Children Education for Death)

Voltando ao desenho do Pato Donald…

Com um pouco mais de sete minutos, o desenho começa com um desfile de uma banda composta de militares um pouco afetados, característica comum aos desenhos da época quando queriam criticar algo. Na música, os decanos do governo alemão da época, Goebells e Göring, são citados, bem como algumas de suas famosas falas.

Aí, surpresa! Podemos notar que os componentes da banda também são figurões. No que a música faz uma referência aos alemães serem super-homens arianos e puros, o refrão é repetido, em primeira pessoa do plural, por ninguém menos que Hiroíto, o imperador do Japão na época. Na parte da música que fala sobre como a Naziland (nome da terra dos nazistas… duuh!) é boa, Mussolini (o dulce da Itália) retruca “Nós a deixaríamos se pudéssemos” numa referência a uma suposta vontade de deixar a aliança com os alemães de lado.

O desenho corta para o interior do “barraco” em que Donald vive na Nazilândia. Ele está dormindo e fazendo a saudação nazista sincronizada com a música da banda. Seu despertador, o cuco na parede e o galo que tentam acordá-lo têm referências a pelo menos um ícone nazista. Ao ser acordado por uma baioneta, ele veste seu uniforme nazista e vai preparar seu café: um saché improvisado de café mergulhado algumas vezes numa xícara de água, um borrifo de essência de ovos e bacon na boca e uma fatia de pão cortada por um serrote.

Seguem-se algumas situações, como um Mein Kampf espetado numa baioneta surgindo do nada para que ele o leia, até que a banda entra no barraco para levar Donald para o trabalho. Ou melhor, Donald carrega a banda até o seu trabalho: uma fábrica de munições (um tanto fálica, reparem) emoldurada por um cenário apocalíptico.

A mesma voz em off fala sobre as maravilhas de ser um trabalhador nazista. O texto nesse ponto acaba descambando para alguns exageros como se trabalhar 48 horas por dia, mas não como escravo e até a morte. Então, Donald começa a montar, numa linha de produção, as munições a serem usadas pelo exército alemão.

A sequência lembra bastante Tempos Modernos. A intenção, pelo que dá a entender, é fazer uma crítica à produção em série dos alemães, mas que também era amplamente utilizada nos EUA. A diferença entre as duas é a constante aparição de retratos de Hitler na esteira alemã, que deveriam ser saudados assim que fossem vistos, algo que tornava o trabalho mais complicado. Numa das sequências de heils, Donald reclama e é imediatamente ameaçado por vários fuzis surgidos do nada, exigindo uma retratação.

Enfim, o Führer concede, graciosamente, férias aos funcionários da fábrica: um cenário reproduzindo os alpes austríacos que poderia ser admirado. Após alguns segundos, as “férias” terminam e Donald é convocado por um decreto a trabalhar em regime de hora-extra.

Quase no fim do desenho, Donald pira com toda aquela pressão (e opressão), com alucinações envolvendo bombas, coturnos e apitos de fábrica e, depois de alguns momentos de sofrimento, acorda em sua cama, vestindo um pijama que só o Apollo Creed (Rocky I, II e III, lembram?) vestiria. Após confundir uma sombra com braço levantado em sua parede com uma saudação nazista, olha para a janela e vê uma miniatura da Estátua da Liberdade. Donald corre até ela, a abraça e diz quase às lágrimas: “Eu sou muito orgulhoso em ser um cidadão dos Estados Unidos da América”.

No final, aparece na tela uma caricatura de um Führer carrancudo, acompanhada de uma estrofe da música inicial dizendo que “não amar o Führer é uma desgraça”. Ao mesmo tempo que se completa a estrofe dizendo “nós saudamos a cara do Führer”, um tomate é atirado na caricatura.

The end.

comentários
  1. Filipe Crespo disse:

    Grande Lelo. Não sabia da história do vídeo. Muito bacana. Até Oscar ganhou. Abs. Filipe.

  2. jonathan disse:

    Como este desenmho foi produzido em 1943? Já havia desenhos coloridos esta época?

    • Lelo Brito disse:

      Opa! Com certeza, Jonathan!
      A colorização chegou antes nos desenhos que nos filmes.
      Na verdade, era bem mais fácil colorir os desenho do que os atores. Aliás, a Disney sempre foi a inovadora no segmento.
      Por outro lado, se você der uma olhada nos outros links do post, notará que alguns outros desenhos da mesma época ainda eram produzidos em P&B.

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